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O custo de uma salada embalada, artigo de Carlo Petrini

"No que se refere aos alimentos, aquilo que pode parecer uma renúncia pode ser, ao invés disso, uma vantagem."

*A análise é de Carlo Petrini, chef italiano e presidente e fundador do movimento Slow Food, em artigo para o jornal La Repubblica, 31-07-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quando os italianos sentem a crise, os dados estatísticos nos dizem pontualmente que o primeiro consumo que é cortado é a comida: menos 3% de verduras, menos 1,5% de óleo, menos 10% de carne. Desperdiçam-se cifras negativas. Primeiro, acolhemos a notícia com preocupação e tristeza, mas o dado bruto deve ser examinado profunda e criticamente. Seria preciso perguntar-se “como” os italianos estão acostumados a gastar com alimentos, e não apenas “quanto”.

Existem diversos modos para viver bem, também em tempos de crise – muito acima de uma banal e insossa existência como “consumidores” –, até economizando algum dinheiro. É também verdade que, apesar do fato dos preços dos produtos agrícolas italianos estarem no nível mais baixo de sempre, reduzindo os agricultores a trabalhar quase todos com perdas, no detalhe os preços parecem não cair mais. É um pouco como a gasolina: sobe quando o barril de petróleo sobe, mas depois, quando a matéria-prima custa menos, não há reduções. Seguramente, existe a necessidade de preços mais justos para todos, mas reflitamos sobre por que, enquanto isso, nós continuamos impassíveis com opções de compra não sustentáveis, nem para o meio ambiente, nem para os bolsos.

Por exemplo, a salada de “quarta gama”, isto é, aquela já lavada, cortada, embalada em potes ou sacos e pronta para o uso, custa de seis a sete vezes mais do que a que é comprada fresca no mercado.

É um setor em crescimento contínuo há pelo menos dez anos, que gera margens de ganho conspícuos às empresas produtoras. Na Itália, alcançamos a segunda posição na Europa em vendas de quarta gama. No supermercado, essas saladas são encontradas a partir de cerca de 7 euros por quilo, embora não seja tão difícil o preço subir depois. Depende se há mais tipologias de saladas misturadas, ou a complexidade das embalagens para manter separados os diversos componentes. A embalagem tem seu custo.

Depois, talvez coloquem-nos variedades um pouco mais caras, e o preço sobe, embora, na realidade, o valor é discutível, porque as saladas de quarta gama são todas obtidas com variedades selecionadas e cultivadas propositalmente para satisfazer os procedimentos industriais necessários.

Enfim, mesmo que se trate de chicória, sempre é uma chicória também de “quarta gama”. Enfim, existe a variedade vegetal: vi nos supermercados duas saladas embaladas, iguais em todos os ingredientes, exceto que, em uma das duas, havia cenouras cortadas em pedaços. Pois bem, esta última custava 25 centavos a mais na embalagem de 200 gramas. Por quilo, chega a 1,25 euro. Esse seria o preço de um punhadinho de cenouras, que nem chegam a uma inteira, cenouras que são pagas a 9 centavos por quilo para o agricultor?

Sete euros por quilo por uma salada! E atenção: nós a compramos já pronta para economizar tempo, mas muitas vezes acabamos lavando-a novamente, porque não confiamos nas “atmosferas modificadas” em que são produzidas.

Mas não é só a salada: vi uma embalagem de massa pré-cozida com molho basílico e mussarela a quase três euros por um par de porções. Deve ser fritada por cerca de sete minutos. Se faço as contas, com duas porções de massa ao molho basílico e mussarela cozida com os ingredientes frescos, gasto a metade e, para fazê-la, gasto cerca de dez minutos, o tempo de cozimento da massa, enquanto preparo o molho.

À parte o fato de que eu desconfio de qualquer pessoa que me diga que aquela massa pré-cozida e congelada é melhor do que uma preparada na hora, por que tantas pessoas fazem essas escolhas ilógicas, apesar da crise? Lamentamo-nos de que a comida é cara, mas uma vez diante das prateleiras do supermercado deixamos de lado o raciocínio e pagamos sem nem piscar os olhos. Pagamos, convictos de que ir ao mercado do hortifrutigranjeiro ou do agricultor nos leve muito tempo, que lavar a salada nos leve muito tempo, que cozinhar matérias-primas simples nos leve muito tempo. Tempo precioso, que somos dispostos resignadamente a pagar, e pagar caro.

Mas esses minutos, essa horinha diária economizada, não valem verdadeiramente o nosso dinheiro? Esse tempo livre diário, como o empregaremos? Em atividades recreativas, relações interpessoais satisfatórias, enriquecimento dos próprios interesses culturais? Não acredito. Parece-me mais difundido o hábito de se isolar diante de uma tela, de TV ou de computador, afundados na nossa preguiça mental rotineira.

Para alguns, o tempo “liberado” serve até para trabalhar mais. Mais dinheiro dá a possibilidade de satisfazer necessidades fictícias, de comprar objetos inúteis, dentre os quais até comida pré-pronta. Nunca como hoje, talvez, a humanidade do Ocidente teve potencialmente tanto tempo livre à disposição, mas ele é vivido como um recipiente a ser preenchido, planejando de forma consumista atividades, encontros, aquisições, para enganar o vazio que nos dá medo.

Mas voltemos à estatística alarmante da queda dos consumos alimentares como sinal de piora das condições econômicas. Um dos dados mais enfatizados refere-se à carne. “Queda no consumo de carne”: isso é evidenciado como se fosse uma coisa preocupante, mas não é verdade. Porque, sim, comemos muita carne, segundo os nutricionistas. E além disso as criações intensivas têm consequências ambientais assustadores. Para produzir um quilo de carne, são necessários mais de 15 mil litros de água, e de um lado da fila estão monoculturas de cereais para a ração insustentável, tanto do ponto de vista energético, quanto ambiental. Do outro, dejetos poluidores para solos e camadas aquíferas, além de emissões excessivas de gás metano e de CO2, responsáveis pelas mudanças climáticas. Se todos no mundo comessem os cerca de 90 quilos per capital que um italiano consome em média, o planeta entraria em colapso.

O fato de que se come menos carne deveria ser considerado um dado positivo. Em todo o momento de crise, também nas passagens dolorosas, pode haver uma oportunidade nova. O exemplo mais evidente é justamente o da possibilidade de mudar os nossos consumos alimentares. Sem renunciar às nossas necessidades energéticas e nem às gratificações que a comida pode nos dar, ou melhor, ganhando em saúde.

Privilegiar a aquisição de matérias-primas simples de cozinhar nos dá a possibilidade de economizar, assegurando-nos uma maior qualidade e frescor. Lembremos que é justamente o frescor dos alimentos que nos garante uma relação ideal de nutrientes. A ausência ou a quase ausência de manipulação e de acréscimos é o modo mais fácil para reconhecer a qualidade de um alimento. Procurar canais alternativos para a despensa, diretamente do produtor ou nos mercados agrícolas, é um outro modo vantajoso para mudar de hábitos.

Por fim, existe o desperdício. Não é o caso de se alongar muito: aquelas 4 mil toneladas por dia de alimentos ainda utilizáveis que são jogados no lixo na Itália falam por si mesmas e exigem vingança. Sabe-se lá quantas saladas de quarta gama, que venceram nas prateleiras do supermercado, ou que murcharam em nossas geladeiras, concorrem para atingir a quantia de 4 mil toneladas.

Enfim, a crise certamente nos coloca diante de grandes dificuldades, no campo do trabalho, por causa da falta de recursos financeiros, o corte de serviços essenciais, as consequências sempre mais pesadas para a degradação ambiental. Dedicamos a esses problemas as estatísticas alarmantes. No que se refere aos alimentos, pelo contrário, mudamos o olhar: aquilo que pode parecer uma renúncia pode ser, ao invés disso, uma vantagem.

Fonte: Portal Ecodebate / IHU On-line 

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